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Simulflow: «As mulheres têm um papel muito importante na indústria»

05 Maio 2022

Foi na República Checa que Teresa Neves se graduou em engenharia de polímeros, realizando assim o sonho de se formar numa área diretamente ligada à produção industrial. Aí conheceu também o futuro marido e, regressando a Portugal, inicia atividade na região de Leiria, na indústria de transformação de plásticos. Em 1987, no sector dos moldes para plásticos, para onde se transferiu, foi pioneira na aplicação de uma tecnologia que começava a emergir: a simulação do processo de injeção de plásticos. Sempre dentro dessa área e nas empresas por onde passou, foi aperfeiçoando os seus conhecimentos e o seu método de trabalho. Hoje, de acordo com a generalidade das pessoas da indústria, é uma das maiores especialistas na área da simulação.


Em 2001, decidiu arriscar e criar a sua própria empresa de prestação de serviços de simulação – ReoPoly - e escolheu um software, no qual foi pioneira em Portugal e na Europa. Desta forma se estabeleceu com empresária de referência nesta área.


Do seu início de carreira testemunha:


“Quando comecei, no sector dos plásticos, as mulheres tinham tarefas muito específicas: estavam na decoração, nos acabamentos ou nas áreas administrativas. Na produção, não havia”, recorda, adiantando ter sido, precisamente, nessa área que entrou na indústria. Primeiro, no departamento de qualidade e, depois, na simulação. “Fui responsável pela sala de projeto durante um ano”, salienta.


A simulação era, então, algo desconhecido. Foi pioneira na implementação dessa tecnologia e, curiosamente, foi-o juntamente com uma outra mulher. “Talvez por isso, na década de 1980, as empresas começaram a associar a simulação às mulheres”, conta, acrescentando que, nos anos seguintes, foi encontrando mulheres no seu percurso profissional nas empresas, na área da simulação. Mas gradualmente também no projeto e engenharia. Apesar disso, enfatiza, “não me recordo de ter encontrado mulheres na gestão desses departamentos, ou de outros ligados à produção. Ainda hoje, não encontramos muitas mulheres nesses cargos”.


No seu entender, se elas não estão em maior quantidade na indústria isso deve-se, sobretudo, a uma questão: “a dificuldade de conciliar a vida profissional com a vida familiar”. Em Portugal não se valoriza a maternidade e as mulheres acabam por não assumir cargos de gestão porque as sobrecarregam e não conseguem conciliar as duas situações”, defende. Depois, lembra, “há um estereótipo que não se conseguiu esbater: que há áreas específicas, como algumas engenharias, para os homens e outras para mulheres. Logo na infância, as meninas são condicionadas a pensar assim e vão carregando esse preconceito pela vida”.


Para Teresa Neves, há ainda algumas lacunas nas escolas. “Os direitos e oportunidades não estão a ser bem transmitidos às jovens e isso reflete-se, depois, no acesso às profissões”, diz.


No seu entender, o objetivo é que se alcance um equilíbrio, nas empresas, entre o número de homens e mulheres nas várias funções. E isso, salienta, acontece, por exemplo, na sua empresa onde metade dos elementos são mulheres.



CONFIANÇA

Ao longo do seu percurso profissional, Teresa Neves garante que nunca sentiu qualquer tipo de diferença de tratamento, por ser mulher, junto dos colegas (homens) de trabalho. Mas o mesmo não aconteceu, por exemplo, nas negociações com os clientes. “Por vezes, faziam-me sentir que eu tentava negociar uma questão que não era suposto ser tratada por uma mulher. Mostravam alguma desconfiança e, não generalizando, cheguei a sentir numa ou noutras ocasião que, se não fosse mulher, as coisas decorreriam de forma diferente”, explica, frisando que “por vezes, ocorreu considerarem que não seria competente e, outras vezes, mostravam-se surpreendidos por constatar que era competente no que fazia”.


Na época, os clientes eram homens. Hoje, apesar de haver algumas mulheres, a maioria dos clientes continua a ser do género masculino. Apesar de atualmente não sentir essa falta de confiança por parte dos clientes, Teresa Neves salienta que, após todos estes anos, a sua experiência é reconhecida, uma vez que consolidou uma imagem no mercado.


Para Teresa Neves, apesar de todo um percurso evolutivo no caminho da integração das mulheres nas empresas, há uma realidade que se mantém: “as mulheres estão frequentemente a ser postas à prova com um grau de exigência superlativo para poderem aceder a cargos de responsabilidade, por isso têm de fazer um esforço muito maior e nem sempre, por causa de todo o contexto, nomeadamente extra laboral conseguem. E, no seu entender, “as mulheres têm um papel muito importante na indústria, seja na organização, na gestão da informação e outras matérias que são questões críticas, hoje, nas organizações”. Por isso, defende, “as empresas deviam pensar em melhorar as condições para conseguir atrair mais mulheres”.




Texto: Helena Silva
Publicação: Revista Molde, 133