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TJ Moldes: Afirmação pela competência

14 Junho 2022

Foi no final da década de 1980 que a questão da Qualidade e os sistemas de certificação começaram a entrar, em força, na vida das empresas. A natural predisposição que a maioria das mulheres tem para cuidar de processos desta natureza que, de uma forma transversal, podem ser entendidos como o ‘arrumar a casa’ nas empresas, levou a que, ainda hoje, muitas integrem esta área na indústria. Mas para aqui chegar, foi necessária persistência para consolidar uma mudança de hábitos e tradições que caracterizavam a produção dos moldes.


Dulce Santos, da TJ Moldes, leva mais de três décadas de trabalho na indústria. Começou nos plásticos, na RTJ Plásticos, como chefe de produção e, três anos depois, saltou para a indústria de moldes, diretamente para o ambiente masculino do chão de fábrica, onde iniciou a área da Qualidade.


Recorda que, na época, sentiu uma necessidade grande de “arrumar a casa”, ou seja, criar regras, procedimentos que facilitassem o trabalho. Tem a noção de que, nos primeiros tempos, tal desejo não foi bem-encarado pelos colegas de trabalho, homens exclusivamente. Mas foi agindo “com tato, com atenção e determinação” e, passado algum tempo, havia a convicção generalizada de que o processo registava melhorias. Foi criado um manual de procedimentos que contou com a colaboração de todos. A casa, enfatiza, “estava a ficar arrumada”.


“Foi muito importante ter começado pelos plásticos. Eles viam-me a trabalhar tanto como qualquer outro, perceberam que eu sabia fazer, que sabia do que falava. Independentemente de ser ‘a esposa do patrão’, penso que me viam, essencialmente, como mais uma colega de trabalho, que estava com eles quando era preciso, que trabalhava como eles”, relata.


Dulce Santos começou como gestora do processo de Qualidade e ainda hoje tem essa missão. A empresa foi das primeiras a obter a certificação, em 1995. Mas foi e fez muito mais para além da Qualidade, numa indústria que começava, então, a despertar para as questões da organização, da higiene, da segurança e do ambiente.


“Havia essa necessidade e fui iniciando essas áreas na empresa, criando e gerindo processos e metodologias”, recorda, salientando que se tratou de um processo “difícil”. “Há 30 anos era tudo um pouco mais complexo, moroso, complicado”, explica. Recorda, por exemplo, a quantidade de papéis que era necessária para criar metodologias ou projetos. Salienta a quantidade de instituições que era necessário contactar presencialmente para obter uma licença, um pedido de certificação, entre outras coisas. “Não havia internet, não era possível consultar online: tinha de se ir aos locais, consultar documentos, pedir cópias, agendar reuniões ou fazer deslocações”, adianta.


A gestão destes processos levou a que ficasse responsável por outros, de outro tipo, como os projetos de inovação, que passaram a estar também sob a sua alçada. “Era fundamental ter a empresa na linha da frente das soluções tecnológicas, mas eram processos lentos, burocráticos e complexos”, lembra.


Apesar disso, nunca esmoreceu. Pelo contrário, encontrava força nas adversidades para conquistar os objetivos a que se propunha. Conta que a indústria tinha, então, poucas mulheres. E sempre que surgia nas instituições para solucionar questões relacionadas com a empresa, notava a surpresa de quem a recebia. “Não era vulgar haver mulheres a tratar dessas questões”, afirma.


Na empresa, as mulheres assumiam cargos na área da contabilidade e, mais tarde, também no serviço de apoio ao cliente. Nos restantes departamentos, havia apenas homens. Aos poucos, refere, “foram aparecendo mais mulheres: na comercial, no escritório e, sensivelmente a meio da década de 1990, tivemos uma mulher na programação”.


À medida que a empresa foi crescendo e caminhando para um grupo empresarial, o seu papel ia sendo cada vez mais generalista. “A parte da manutenção também era comigo. Máquinas, peças, ferramentas e até os edifícios”, conta, salientando que, em conjunto, ia tendo sempre a Qualidade e, sobretudo nos primeiros tempos, “sentia, muitas vezes, que nas auditorias tudo o que fazia estava a ser posto à prova”.


E no chão de fábrica, enfatiza, continuava rodeada por homens. “Na época, a indústria era diferente. As mulheres tinham de sujar muito as mãos para entrar para as empresas e tinham de mostrar que eram boas no que faziam, tinham de dar provas disso aos homens”.


Defende que “ainda não estamos num verdadeiro patamar de igualdade entre homens e mulheres, uma vez que elas continuam a ser olhadas como destinadas aos gabinetes”, para considerar que “as coisas vão mudando, as mulheres vão chegando aos sítios pela afirmação, pela competência, pela atitude e pelo conhecimento”.



COMPETÊNCIA

Diana Duarte é Gestora de Sistemas e responsável pela Inovação e Gestão de Processos na TJ Moldes. Chegou à empresa numa época em que a presença da mulher no processo produtivo já é encarada com naturalidade.

“A mulher hoje já integra outras funções que não apenas as ligadas ao escritório e isso é aceite. No entanto, a sua presença na produção não é em grande número. Isso ainda não mudou”, afirma. No seu entender, o caminho desbravado por Dulce Santos antes da sua chegada fez grande diferença. “Tenho a noção do muito trabalho que foi feito para chegar aqui e sinto que tenho o caminho facilitado”, defende, adiantando que, por outro lado, tem também presente “a responsabilidade de prosseguir nesta mesma direção da evolução, da melhoria contínua”.


No seu entender, a mudança que consiga atrair mais mulheres para os vários cargos e departamentos da indústria de moldes passa, sempre, pela cultura das empresas. Estas, defende, “têm organogramas muito horizontais. Tudo depende dos chefes e dos patrões e, por isso, foi passo a passo que foram aceitando as mulheres e será passo a passo que vão aumentado a confiança nas suas capacidades”.


A questão do género, considera, “é hoje, na maioria das empresas, substituída pela competência: as pessoas são valorizadas pelo seu desempenho profissional e é assim que deve ser”. Apesar disso, “as mulheres passam por um escrutínio maior quando entram, apesar dessa questão ter evoluído bastante”.


Não tem dúvidas de que a presença feminina nas empresas tem muitas vantagens, associadas às características das mulheres: “há uma cumplicidade diferente que faz parte de nós e temos uma maneira nossa de saber ouvir, resolver as questões, motivar as equipas”. No grupo TJ, salienta, há um total de 130 colaboradores. Desses, 15 são mulheres, três delas no chão de fábrica.