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São oito décadas de uma história feita de visão e capacidade de inovação. A indústria portuguesa de moldes celebra em 2025 80 anos, tantos quantos os da empresa ‘berço’ do sector, a Aníbal H. Abrantes, que marcou o arranque de um percurso de excelência e reconhecimento internacional. Começou com uma experiência ousada no fabrico de moldes para uma matéria-prima inovadora e culminou numa indústria que, hoje, é uma referência mundial em qualidade, tecnologia e fiabilidade. Este caminho foi trilhado por empresários que acreditaram no futuro, investiram em conhecimento, apostaram em equipamentos e desbravaram mercados por todo o mundo. A indústria de moldes portuguesa orgulha-se de uma herança que começou com um homem e uma ideia e cresceu com centenas de empresas e milhares de profissionais que levaram o nome de Portugal pelo mundo.
Por Helena Silva
Foi em 1929 que Aires Roque trouxe o irmão, Aníbal H. Abrantes, para a Marinha Grande, fundando a empresa Aires Roque & Irmão, dedicada ao fabrico de moldes para vidro. Instalados numa antiga fábrica de vidro desativada, lançaram as bases de um negócio que, sem saberem, viria transformar o tecido industrial português.
O momento de viragem deu-se em 1936, quando Aníbal Abrantes insistiu na ideia de experimentar fabricar moldes para uma nova matéria-prima: baquelite (ou ureia fenólica), um material precursor da indústria de plásticos. Foi nessa altura que surgiram os primeiros moldes para plásticos, encomendados pela empresa Nobre & Silva, fundada em Leiria em 1927, para tampas de frascos de perfume.
Segundo a obra ‘História da Indústria Portuguesa de Moldes para Plásticos – Contributos para a sua História’, de Nuno Gomes, foi esta aposta, contestada pelo irmão, que precipitou a separação entre ambos. Em 1945, Aníbal H. Abrantes comprou a parte do irmão e renomeou a empresa com o seu nome, assumindo a liderança de um projeto que viria a dar origem a um novo sector industrial em Portugal.
“Pus de parte os moldes para vidro e comecei com os moldes para plásticos”. A frase é do próprio Aníbal Abrantes, numa entrevista publicada pelo Jornal da Marinha Grande em 1981. Nesse artigo, conta que “quando a guerra acabou, comprei a quota do meu irmão e fiquei sozinho. Então, em 1946 pus completamente de parte os moldes para vidro e comecei a fabricar só moldes para plásticos. O meu único cliente, na altura, era o Nobre & Silva”.
Sem máquinas apropriadas e com recursos limitados, a empresa foi crescendo, adaptando-se e investindo em maquinaria inglesa e suíça, incluindo um forno elétrico para tempero de aço. A partir de 1949, começou a produzir moldes de injeção para plásticos, sendo o primeiro destinado à empresa Hércules, em Espinho — onde estava instalada a primeira máquina de injeção de plásticos em Portugal.
À época, os moldes para plásticos vinham sobretudo de Inglaterra, com custos elevados e longos prazos de entrega.
Aníbal Abrantes percebeu a oportunidade e investiu na diferenciação: em 1949, os moldes portugueses já custavam metade do preço dos ingleses e eram entregues em metade do tempo.
BERÇO DA INDÚSTRIA
O sucesso da Aníbal H. Abrantes foi o motor do nascimento de muitas outras empresas. Alguns dos seus colaboradores fundaram os seus próprios negócios — muitos deles com o apoio do próprio empresário — espalhando pelo país o conhecimento e a cultura industrial que traziam da ‘casa-mãe’. É o caso de nomes como Emídio Maria da Silva (1947), Edilásio Carreira da Silva (1950) ou da empresa Santos & Abrantes, em Oliveira de Azeméis (1950), a Somema (1958), a Lismolde (1959), a Somoplaste (1965), a Novateca (1968) ou a Molde Matos (1968), entre muitos outros.
A década de 1950 ficou marcada por um crescimento acentuado. Em 1953, a empresa inaugurou novas instalações revolucionárias, com presença de figuras de destaque nacionais. No final da década, contava com cerca de 200 trabalhadores. O empresário continuava a viajar pela Europa, visitando fábricas e adquirindo os melhores equipamentos: uma aposta que deu frutos.
A internacionalização da indústria começou com o contacto de Tony Jongenelen, um cliente holandês que propôs vender moldes portugueses no estrangeiro. A partir daí, a indústria dos brinquedos, especialmente na Inglaterra e Estados Unidos, tornou-se um mercado estratégico.
Em 1959, a Aníbal H. Abrantes já exportava mais de 52 % da sua produção, número que subiria para 72 % em 1960, com os Estados Unidos a representarem 60 % do total das exportações.
ESPECIALIZAÇÃO
Ao longo das décadas seguintes, o sector cresceu em número de empresas, em conhecimento técnico e em reconhecimento internacional. Em 1980, a indústria de moldes portuguesa exportava para mais de 50 países. Só na Marinha Grande existiam 54 empresas, com 2.000 trabalhadores. O boom da indústria automóvel foi um novo motor de crescimento e o sector soube responder com qualidade, inovação e especialização.
A aposta foi clara: tecnologia de ponta, controlo rigoroso de qualidade, modernização contínua dos equipamentos e forte investimento na formação profissional. A criação e atuação da CEFAMOL e, numa segunda fase, do CENTIMFE, são reflexo da visão estratégica da indústria e dos seus protagonistas, que se organizou para ser mais competitivo e eficaz.
Com o passar das décadas, os moldes portugueses ganharam notoriedade internacional, sendo sinónimo de qualidade e precisão, reconhecidos nos mercados mais exigentes. A indústria especializou-se, desde moldes de grande dimensão a peças de alta precisão, e teve sempre como prioridade manter-se na vanguarda tecnológica.
DIVERSIFICAÇÃO
Mais recentemente, com a estagnação da indústria automóvel, que durante décadas foi o principal motor de crescimento deste sector em Portugal, as empresas não cruzaram os braços e perceberam a necessidade de encontrar novos rumos. Por isso, responderam com resiliência e visão estratégica, procurando mercados alternativos. Sectores como a indústria médica ou a embalagem, mas também a eletrónica, a aeronáutica e, até mesmo, o espacial, entre outras, passaram a integrar o leque de destinos para os moldes portugueses, abrindo novas perspetivas e oportunidades futuras para o saber-fazer nacional.
Este esforço de diversificação e adaptação é sustentado por uma característica que sempre definiu a indústria: a capacidade de inovação permanente. As empresas apostam na diferenciação, na proximidade com o cliente e na antecipação das suas necessidades, por mais exigentes que sejam.
Com o mundo em transformação, os moldes portugueses continuam a marcar presença nos mercados internacionais, consolidando uma reputação assente na qualidade técnica, rigor, prazo e capacidade de resposta.
Aos 80 anos, esta é uma indústria madura, mas com espírito jovem e irreverente, pronta para abraçar os desafios da digitalização, da inteligência artificial, da sustentabilidade e de uma nova forma de produzir.
A história da indústria de moldes em Portugal é feita de pioneirismo, coragem e determinação coletiva. O seu futuro será escrito com a mesma determinação que a viu nascer: a de nunca parar de inovar, apostando em novas formas de fazer e consolidando, nos mercados internacionais, a sua imagem de inovação e qualidade.