Miguel Nuno Silva *
* Consultor Internacional em Supply Chain, Procurement & Logística
As disrupções nas Cadeias de Abastecimento (CA) foram, são e serão sempre, simultaneamente, fontes de desafios e oportunidades. A Indústria Portuguesa dos Moldes e dos Plásticos não é exceção.
As CA Globais entraram numa nova fase histórica marcada por elevados níveis de incerteza, volatilidade e complexidade. Durante décadas, a globalização proporcionou um ambiente relativamente previsível para o aprovisionamento de matérias-primas, permitindo às empresas otimizar custos através da internacionalização das compras, da especialização geográfica da produção e da crescente integração dos mercados.
Contudo, a sucessão de acontecimentos ocorridos nos últimos anos veio alterar significativamente esse paradigma. A pandemia de COVID-19, os conflitos geopolíticos em diferentes regiões do globo, a instabilidade energética, os fenómenos climáticos extremos, as restrições ao comércio internacional e a crescente pressão regulatória associada à sustentabilidade têm vindo a provocar perturbações sem precedentes nos fluxos globais de materiais e componentes.
Para os setores dos moldes e dos plásticos, fortemente dependentes de matérias-primas industriais, ligas metálicas especiais, polímeros, aditivos químicos e sistemas tecnológicos sofisticados, estas transformações representam desafios particularmente relevantes. A capacidade de assegurar o abastecimento em condições competitivas passou a constituir um fator estratégico tão importante quanto a inovação tecnológica ou a excelência operacional.
Segundo Christopher 1, as empresas enfrentam atualmente uma transição de modelos centrados exclusivamente na eficiência para modelos onde a resiliência assume um papel igualmente determinante, pelo que, em todas as suas áreas deverão estar mais bem preparadas para equilibrar eficiência económica, flexibilidade operacional e capacidade de adaptação.
Nas últimas três décadas assistiu-se a uma crescente especialização regional das cadeias produtivas. Muitos dos materiais utilizados pela indústria europeia passaram a depender de fornecedores localizados na Ásia, América do Norte ou Médio Oriente. Este fenómeno permitiu ganhos significativos de produtividade e redução de custos, mas criou simultaneamente dependências estruturais que se tornaram evidentes quando ocorreram as primeiras grandes interrupções logísticas associadas à pandemia.
A indústria dos plásticos depende diretamente da disponibilidade de matérias-primas provenientes da cadeia petroquímica mundial - polietileno, polipropileno, poliamidas, policarbonatos, ABS e PET constituem alguns dos materiais mais utilizados em múltiplos setores industriais. A produção destas resinas está fortemente relacionada com a evolução dos mercados energéticos globais.
Consequentemente, qualquer perturbação no fornecimento de petróleo, gás natural ou derivados petroquímicos repercute-se rapidamente nos custos de produção. Embora os polímeros constituam a componente principal dos materiais plásticos, numerosos processos produtivos dependem igualmente de aditivos especializados que conferem propriedades específicas aos produtos finais - pigmentos, estabilizadores térmicos, retardadores de chama, agentes antiestáticos, modificadores de impacto e diversos compostos químicos desempenham funções fundamentais na indústria transformadora.
Paralelamente a tudo isto e, como decerto acompanham, existe a preocupação (por obrigação, será?) na procura de materiais ambientalmente sustentáveis. A procura por polímeros reciclados de elevada qualidade cresce a um ritmo superior à capacidade instalada de reciclagem em muitos mercados europeus. Como resultado, determinadas categorias de material reciclado passaram também a apresentar oscilações de preço e constrangimentos de disponibilidade.
A sustentabilidade deixou assim de representar apenas uma questão ambiental para assumir igualmente uma dimensão estratégica associada à segurança do abastecimento.
1 Christopher, Martin – professor emérito da Cranfield University e uma das referências mundiais em Supply Chain Management e autor da obra de referência ““Logistics and Supply Chain Management”.